A pauta da exploração e sexualização de crianças e adolescentes tomou conta das redes sociais nos últimos dias, impulsionada pela atuação do influenciador Felipe Bressanim Pereira, mais conhecido como Felca.
Com milhões de seguidores, ele vem ganhando espaço no debate público e se notabilizou por críticas contundentes à indústria das apostas online. Durante a CPI das Bets, atacou a postura da influenciadora Virginia Fonseca e de outros criadores que promovem cassinos virtuais.
Na última semana, Felca voltou ao centro das atenções ao publicar o vídeo “Adultização Infantil”, no qual expõe casos de exploração e sexualização precoce de crianças nas redes sociais.
Com quase 50 minutos de duração, o material viralizou, ultrapassou a bolha de seu público e rapidamente pautou o debate político. Figuras como Érika Hilton, Guilherme Boulos e Nikolas Ferreira se manifestaram publicamente, mostrando que o impacto do conteúdo transcende diferenças ideológicas.
Essa amplitude também se refletiu fora das redes abertas.
Monitoramento em tempo real da Palver, que acompanha mais de 100 mil grupos de WhatsApp e Telegram, identificou que o tema circulou intensamente nesses espaços, atravessando fronteiras políticas e sendo compartilhado por usuários de diferentes espectros.
As menções permaneceram estáveis até 6 de agosto, mas, a partir do dia 7, cresceram de forma acelerada, atingindo o pico em 9 de agosto. O salto indica que a repercussão extrapolou a base original do influenciador, alcançando públicos e ambientes onde ele raramente é citado.
A análise de distribuição ideológica, no entanto, revela uma assimetria: cerca de 39% das mensagens partiram de grupos alinhados à direita, 11% da esquerda e 50% mantiveram-se sem identificação ideológica, tratando o caso de maneira despolitizada.
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Entre os grupos de direita, o vídeo foi amplamente compartilhado como defesa de valores morais e combate à sexualização infantil, ainda que, em alguns casos, acompanhado de desconfiança sobre seu uso como justificativa para ampliar a regulação das redes sociais.
Já na esquerda as manifestações associaram as denúncias a pautas de proteção de direitos, regulação digital e responsabilização de influenciadores. A expressiva fatia neutra sugere que o caso mobilizou também um público mais amplo, pouco engajado em disputas políticas polarizadas.
O debate sobre soluções para esse tipo de crime encontra respaldo nas tecnologias já disponíveis. Ferramentas de reconhecimento de imagem e análise de clusters evoluíram a ponto de viabilizar muitas das medidas defendidas por Felca.
Na Palver, já testamos modelos de redes neurais capazes de estimar a faixa etária de pessoas em fotos e vídeos, identificar conteúdo sensível e mapear interações por meio de clusterização, detectando públicos hostis ou predatórios. São recursos prontos para uso em larga escala pelas grandes plataformas.
O desafio, portanto, não é técnico, mas de critério: até onde as big techs estão dispostas a agir.
Com regras mais rigorosas, a tecnologia poderia atuar de forma preventiva —reconhecendo padrões, bloqueando canais de disseminação e reduzindo a exposição de crianças e adolescentes a ambientes de risco.
Tornar a internet mais segura para o público infanto-juvenil é, hoje, mais uma questão de decisão política do que de capacidade técnica.
A repercussão do vídeo de Felca deixa claro o valor de vozes dispostas a expor temas que, muitas vezes, passam despercebidos ou são tratados com constrangimento.
Denunciar a exploração e a sexualização de crianças e adolescentes é mais do que uma pauta moral: é uma urgência de saúde pública e de direitos humanos.
Em um momento em que o país discute, no nível federal, a regulamentação das grandes empresas de tecnologia e das redes sociais, a proteção do público infanto-juvenil não pode ser tratada como detalhe ou anexo de outras agendas —é, e deve permanecer, um eixo central de qualquer política séria para a internet.
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Fonte: Folha de São Paulo